Eu perdi. O fio de nylon existe, mas não me prende: me alimenta. Não tenho muita fome, como pouco até. Não me preocupo com calorias, menos ainda com propriedades benéficas à saúde. Importa o colorido do prato, a cor do que engulo me pinta por dentro. Garanto, assim, que o fio permanecerá cumprindo sua função vital e, veja só, transparente de conexão. Meu apetite é melindroso, e por isso não posso chamar uns fragmentos coloridos que recebo – ou aqueles que cultivo em dois ou três vasinhos  – de migalhas. São milagres, transmutam-se em sentido e ligamento, alquimia pura. Mas parou de chover por meses e os pigmentos morreram pela ausência de boas misturas ou inabilidade para combiná-las. Eu perdi a fome, eu perdi o fio.

primavera

Você é uma esquina, o lugar pra onde convergi. Agora, repare nos canteiros, as amoreiras estão carregadas e minhas mãos manchadas de vermelho. A primeira vez que te vi usando um chapéu panamá, o sol nascia no seu ventre. Meus olhos se fecharam, e a claridade fazia medo e ardia, o mesmo que você sentia diante de um cão. Passei aqueles dias pendurada nas palavras, o vento tirando as folhas da ordem numérica. Guardei a caixa de fósforos no criado-mudo, porque as larvas comem tudo. Você prefere a sombra do seu chapéu. Eu dobro à esquerda. E sinto saudades por costume.

São os detalhes que fazem a gente amar o outro por inteiro. Uma pinta ao lado da boca ou um jeito engraçado de andar: pronto, a bem-querença se faz nessa espécie de segredo que se descortina e faz do outro uma nectarina no meio das laranjas.

Meu pai é um ser cheio de detalhes. Na minha adolescência, ele vivia assobiando músicas totalmente desconhecidas. Mas tinha aquela enigmática, que ele assobiava a melodia e depois cantava o verso. Apenas um verso. Não tinha início, não tinha fim, só um verso: “Se um dia, meu coração for consultado”.

Numa roda de samba, anos mais tarde, escutei aquele verso no meio de outros tantos. Senti meu coração apressado, todo o meu corpo tomado: foi um rio que passou em minha vida.

O rio-assobio do meu pai existia e era caudaloso.
Sim, meu coração tem mania de amor.

Convém que você conserve a pele grudada, cobrindo os ossos. É preciso – cada vez mais e mais – esconder o esqueleto. Na madrugada, os ossos ficam querendo se descobrir, se mostrar. Mas mantenha-os quentes. Só o pensamento sangra.

Último botão

                                  para Diego Jock

 

Esperava
sacudida por soluços
mas não adiantava nenhuma
simpatia ou tomar água,
nada.

Na sala dos passos perdidos
eram renovadas, a todo momento,
as pessoas em volta
: um breve roçar de saias
e os sapatos conhecendo
aquele não-lugar,
um ar em redemoinho
impossível pegar com
as mãos.

Já ele inventava essências
nos corredores curtos, mas largos
só tentando não bater as pernas
E do seu casaco aberto apenas
no último botão tira um punhado de
folhas, atravessa até ela e diz:

– Alfazema, toma. Coloca no bolso.

 

 

(este poema faz parte do meu livro inédito Pequenos afazeres domésticos, que vai ser publicado este ano pela Patuá)

Santo Antônio do Monte é uma cidade pequena e, como convém às cidadezinhas, tem cheiro de dama-da-noite e poeira. Numa tarde, em frente à casa da minha madrinha, conheci minha melhor amiga de infância, e ela me ensinou a colecionar pedrinhas diferentes que íamos caçando pelo chão. Eu tinha medo do homem do saco, que sequestrava as crianças. Ele morava na cidade e se escondia; mas ao mesmo tempo, naquelas terras de Minas, sempre fui solta, como uma pipa – sempre um cata-vento. Minha avó fazia comidinhas com nome engraçado: “joão-deitado”, “mentira”, “fubá-afogado”… Água, a gente encontrava nos rios amarronzados, era subir na carroceria do caminhão do tio com muitos primos e ir pra roça se aliviar do sol. Num desses passeios, peguei “vento” no olho pela poeira que vinha ali de cima do caminhão. Meu avô me benzeu com um raminho de planta. E eu tinha fé nele, na sua pele trincadinha.

Onde foi que você escondeu aquela pedra brilhante, bem verdinha, que carregava pendurada no pescoço? Fui tatear no alto da estante, perto da máquina de escrever que seu pai te deu quando seu primeiro filho nasceu. E olha, achei umas chaves antigas guardadas lá. Pareciam de cadeado. Será que eram aquelas chaves da corrente da bicicleta? Houve uma tarde de domingo que gastamos procurando-a, você se lembra? Por fim, foi preciso quebrar os elos da corrente, não teve jeito. E hoje eu encontrei essa chavezinha aqui, mas nem a bicicleta existe mais, e ainda tenho vontade de girar, mãos no guidão.