Sarau Patuscada

Vem, gente!

Eu estarei lá.   :)

 

 

 

:)

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Noventa e cinco

Duas guerras mundiais, invenção do rádio, televisão, computador. Seu Geraldo viu muita coisa, mas não dava muita importância, porque tinha que construir sua casa observando o tempo, fazer seus próprios tijolos de olaria. Na lida na roça, em Santo Antônio do Monte/MG, ele se preocupava se a chuva que estava caindo seria suficiente pra fazer crescer a mandioca, o feijão e o café. Ele também precisava do milho e das hortaliças livres das pragas pra poder vender ou trocar. Que diferença faz se Minas Gerais é um lugar sem mar, dentro de um país maior, se pra ele sua terra é o que podia fertilizar seus sete filhos e sua esposa, Dona Lia? Minas Gerais é onde o sol nasce e se põe todos os dias. E ele fez boizinhos com laranjas, alpercatas do couro do boi, ralou a mandioca que Dona Lia torrava. Difícil demais fazer tudo com as mãos e a enxada, capinando, abrindo um lugar no mundo. Se depois de quase um século está difícil enxergar, andar e lembrar que onde ele vive ainda é o lugar que construiu, isso é porque na sua cabeça muitas histórias estão se repetindo, embaralhadas. Ele acha que a casa dele é em outro lugar, mas tem o mesmo sofá com capa laranja, a mesma colcha na cama. É pra lá que ele, cansado, quer ir. Eu sei que ele está de mudança pra essa outra casa,  um abrigo que ele preparou a vida toda, no terço que reza toda noite. Lá onde Dona Lia o espera com um café e um biscoito frito. Eu digo pra ele, enquanto ainda dorme por aqui, que ele é o meu passado mais antigo, meus olhos do tempo e o fio que também seguro.

Hoje sou eu que pergunto se você está aqui, vô. Te amo muito.