Noventa e cinco

Duas guerras mundiais, invenção do rádio, televisão, computador. Seu Geraldo viu muita coisa, mas não dava muita importância, porque tinha que construir sua casa observando o tempo, fazer seus próprios tijolos de olaria. Na lida na roça, em Santo Antônio do Monte/MG, ele se preocupava se a chuva que estava caindo seria suficiente pra fazer crescer a mandioca, o feijão e o café. Ele também precisava do milho e das hortaliças livres das pragas pra poder vender ou trocar. Que diferença faz se Minas Gerais é um lugar sem mar, dentro de um país maior, se pra ele sua terra é o que podia fertilizar seus sete filhos e sua esposa, Dona Lia? Minas Gerais é onde o sol nasce e se põe todos os dias. E ele fez boizinhos com laranjas, alpercatas do couro do boi, ralou a mandioca que Dona Lia torrava. Difícil demais fazer tudo com as mãos e a enxada, capinando, abrindo um lugar no mundo. Se depois de quase um século está difícil enxergar, andar e lembrar que onde ele vive ainda é o lugar que construiu, isso é porque na sua cabeça muitas histórias estão se repetindo, embaralhadas. Ele acha que a casa dele é em outro lugar, mas tem o mesmo sofá com capa laranja, a mesma colcha na cama. É pra lá que ele, cansado, quer ir. Eu sei que ele está de mudança pra essa outra casa,  um abrigo que ele preparou a vida toda, no terço que reza toda noite. Lá onde Dona Lia o espera com um café e um biscoito frito. Eu digo pra ele, enquanto ainda dorme por aqui, que ele é o meu passado mais antigo, meus olhos do tempo e o fio que também seguro.

Hoje sou eu que pergunto se você está aqui, vô. Te amo muito.

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17 comentários em “Noventa e cinco

  1. alobabong disse:

    algumas lágrimas fertilizam uma saudade ancestral.cravados nos gestos,no cheiro,parte do nosso DNA e sonhados mundos
    os avós nunca morrem parte do corpo e da voz …que mesmo dormentes embalam nossa consciência de quem somos nós

    Renata Koury

  2. Lilian…por 12 anos meu avô esteve aqui e lá, de mudança. Encontrei nas tuas palavras o que sentia e sinto ainda, agora do outro lado da saudade.

    Texto lindo, lindo demais.

    Beijo grande, carinho

    Dani

  3. Anyelle disse:

    Lili, vi seu coração em palavras!! Lindo!!

  4. ANONIMA disse:

    LILI A REPORTAGEM FICOU JOIA

  5. Anônimo disse:

    nossa, fiquei emocionada… texto lindo… beijos

  6. Marcelina disse:

    Lili, vc descreveu da forma mais linda que eu nem poderia imaginar o que todos nós sentimos. 10! Senti muito não ter ido. Nem quis ligar no dia para não sentir mais ainda…

    • Lilian Aquino disse:

      Nina, foi uma pena você não pdoer estar presente, fez falta!
      E estou querendo muito conhecer o seu menininho.

      • This story was so amazing. For someone that’s better with verbal words over written ones, you had me at the first word, and I’m better at putting them on paper! I held my breath through the whole thing and couldn’t wait to see where the story was going! I loved every word. Thanks for sharing.

  7. Anônimo disse:

    MUITO LINDOOOOOOOOO !!!

  8. neusa disse:

    Lili,
    Fiquei muito emocionada quando li o que voce escreveu!!!
    Na verdade , são anos de história resumidos neste texto.
    Beijão. Amo voce!!!

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