cores

 

 

António Lobo Antunes sobre escrever:

 

“Gosto de desenhar as letras, de bordar. Ver vidro é como fazer amor com camisinha. Minha profissão é escrever sem camisinha”. “Nos dias bons a mão fica a fluir e escreve sozinha.”

“Quando não escrevo me sinto culpado. A criação é um mistério. Há alturas de uma felicidade intensa, mas a maior parte do tempo é angústia. De tentar encontrar a palavra e a música e a cor. Talvez escrever seja a arte dos corantes.”

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tesouro

sepultei umas moedas em 1992, às quatro da tarde. coloquei dois pequenos galhos em forma de cruz e quis rezar por mim, mas não consegui. as orações que eu sabia tinham caído no chão. peguei um terço e a cada conta eu dedicava um nome de pássaro, joão-de-barro, colibri, anu-preto. eu não me lembro como se deu aquela necessidade, era força juvenil, de cavar com os dedos: as unhas entupidas de terra. ou pensei que teria sido melhor jogar na fonte da rua principal, o cobre afundado na água. nunca que ia corroer, nunca. a ideia era infinita, senti medo de não acabar, de não morrer. o único sentido é este, de se desfazer no meio da terra, enterrados.