Nesses tempos

 

 

Meu bem,
os tempos são outros
nossas roupas
rotas
estão penduradas
na cadeira
O amor
passeia ombro a
ombro
trança
artesanalmente
uma palavra
depois outra

É novo o tempo
apague, esqueço,
as rasuras bem ali
aos meus pés
É hoje:
abandone-se

No caminho
isso tudo
ultrapassa
o tempo
o momento certo
indefinido
do afeto.

dias pluviais

a possibilidade de ficar em branco me ocorre agora, mas apenas nesse papel. ou acabar em uma lista com itens feitos de substantivos, escorregadios como as pedras molhadas da cidade, ou como ele mesmo. esse mesmo ele que tantas vezes grassou nas minhas páginas à procura de onde me esconder da chuva que não dava trégua.

a materialização quer ser banal e é a diferença maior entre o que a distância e a negação podem (e fazem) com um sentido. não é simbólico dizer que a chuva e o mar enrugaram as pontas dos meus dedos e que um gato manso (olhos cor do céu que não vimos) quis todo o carinho e colo que pôde arranjar, lânguido.

e “se não tivesse o amor, e se não tivesse essa dor”, melhor era mesmo aquele sorvete de pistache, o camarão com chuchu. mas a canção chove e, no samba ao acaso, havia um bole/rebole tão sedutoramente passeando diante dos meus olhos e os olhos dele buscando tudo ao redor, examinando, esquadrinhando, enquanto tamborilava os dedos no tampo da mesa.

ele é sempre ele, no bar, no mar, o mesmo numa dissimulação de Capitu; um cínico. tento me manter à esquerda, ele diz que encontro meu equilíbrio, e aproveito não me importando com o tempo, nem do relógio nem meteorológico. ele vê vantagem no cinza (um tom apenas), na aguaceira, na água-ardente, nos abraços. mas não tem jeito – vez em quando há trovoadas refletidas no rosto à minha frente, anuviado. como ameaça do meu conforto, dou passos para trás, me recolho embaixo do guarda-chuva.

cravo e canela na bebida pedida, os cheiros de peixe e um acordeon na rua, tudo soa pop, até uma batata souté com alecrim. e seguimos o bloco de carnaval, eu sigo com os olhos suas mãos gesticulando uma conversa imaginária, reparo as pontas da sua ansiedade. meu pensamento ali, presente; ele dramatizava o futuro.

não sei que cor tem a pedra safira; ele notou que pela manhã não sou muito de doce. no entanto,  puxa toda a coberta de noite e aprendi a deixar outra por perto. ando com cuidado pelas pedras que calçam as ruas, fotografo fechaduras, ele a água. não ritualizo – o sagrado passa silencioso por dentro, pelos fluidos, re-mexe – há movimentação de mil partículas – não sei pra onde vão, vou apenas continuar observando.

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Vida Simples

Na revista Vida Simples (ed. Abril) deste mês, saiu uma excelente matéria da Jeanne Callegari sobre três lançamentos de poesia escritos por mulheres: o meu Pequenos Afazeres Domésticos, o Meu útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas, e o Notícias da ilha, de Leda Beatriz Abreu Spinardi

Clique na imagem para ler a matéria!

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