São Paulo, 30 de abril de 2013.

 

Mon coeur,

Nem vou iniciar esta carta perguntando como você tem passado, porque minha proximidade nos últimos meses me permite saber isso diretamente de você, que me conta como nossas vidas podem ser tão bipolares quanto nós.

A noção de profundidade me faz mergulhar em seu universo, que está se fundindo ao meu e, caoticamente, virando outra coisa. Uma coisa sem nome, só o significado. Ao menos, não uso nenhum significante como arma branca, e nem você.

Outro dia passei por aquele hotel bonito e de nome francês em que certa vez tomamos um café, e nem sei exatamente qual foi a ligação, mas me voltou aquela inquietação de fazer coisas inéditas (lembra?), uma vontade de andar por tubulações subterrâneas, de pisar num solo afofado e movediço. Sei que você entende. Na verdade, não lembro se isso era algo meu ou seu. Igual àquela mania de falar super, tudo era super; ou era orgânico. Indiscutivelmente, palavras suas, tão suas que até perdem o sentido, como aquilo que as crianças fazem de repetir repetir repetir mil vezes a mesma coisa até que a palavra perca o sentido e, veja só, reste apenas o significante saindo da boca.

Você me contou sobre os gostos de tantas comidas desde tanto tempo, tempo tempo tempo, que só aos poucos fui sabendo o gosto, tocando com a língua – por isso você me achava meio caipira. Eu ainda sou um pouco, às vezes te deixo antever um olhar meu de soslaio; mas tudo hoje porque quero, é nossa escolha, não é? O sonho da gente passou de estado em estado, gasoso e sólido e virou um chuvisco de certezas de sentido – um caminho e um sentir – que comemoramos tão perto às vezes e outras vezes só de ouvir dizer num sopro.

Mas a gente ainda fala de escolhas e agora ainda mais vamos repetir as consequências até cair num valão comum e tudo seguir. Eu escolho e vejo a resposta do universo. E, claro, você sabe bem, não espero resposta sua, eu repondo as perguntas que você apresenta com esse medo de falar dizer repetir, mas eu respondo e, sim, respondo minha escolha. Porque aquele tempo todo, tão grande aquele espaço aquelas estações todas, me deu a chance de escrever. De escrever esta carta, de escrever sua condição, sua causa e nossa consequência.

Como um começo, me apresento.

E me despeço mandando o meu afeto.

 

Da sua Biscuit.

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lançamento

Na quinta-feira próxima, acontece o super aguardado e badalado laçamento da segunda edição do livro de poemas Sarabanda, de Ana Rüshe.

Tive a alegria de escrever, junto com a poeta e pesquisadora Andréa Catrópa, o prefácio do livro.
Está imperdivelmente lindo, editado com o cuidado e afeto de sempre pela Patuá.

Só pra você ver o ritmo da dança:

 

CORTE

tenho uma navalha no meio das pernas.
quer ver?
assim você poderá sentir melhor,

já que eu cegarei
esses seus dois olhos
que nunca serviram para nada.

***

sarab

salva-vidas

abigail, contenha-se. não dá pra salvar o mundo, sabia? ainda mais quando ele não tá nem um pouco a fim de ser salvo. veja só, o que você sente não tem o poder que inventaram que tem. isso de que o amor é poderoso e que, ploft, sua força transforma tudo em volta não é verdade. sabia? porque amar só não basta. mil outras coisas são necessárias prum salvamento. eu posso saber nadar e correr pro mar pra te tirar da água, eu posso. mas você, em seu nervosismo, me afoga junto, às vezes. mas eu corro pro mar mesmo assim.

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