inventário

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Olha, preciso dizer: o livro novo do Stefanni Marion, recém-lançado, está muito incrível.

Eu tive o prazer e honra de escrever o prefácio.

Então, vou colocar meu texto aqui  pra aguçar sua vontade de ler este INVENTÁRIO!

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É possível matar o que te fere

Seres irremediavelmente solitários, cães abandonados pelos ex-donos, uns quase zumbis. São esses os tipos que vemos se movimentando em espaços pequenos ou sujos, como um quarto ou uma sarjeta da rua, lugares onde os personagens da poesia de Stefanni Marion habitam e onde se debatem à beira de um colapso.

Inventário é o segundo livro do autor, que, tal qual seu livro de estreia, segue a tradição de uma poesia confessional visceral, que tem nas situações íntimas da vida cotidiana a matéria de sua obra, bem ao modo de poetas como Sylvia Plath e Ana Cristina César.

Uma das mais marcantes características deste livro salta aos olhos do leitor logo de início: os poemas impõem um ritmo de uma montanha russa, ora embaixo preparando a subida, ora em pleno despencar ladeira abaixo. E essas modulações de tom são dadas, em alguns poemas, pela repetição de versos, como um refrão, e em outros pela sonoridade das palavras rigorosamente escolhidas. Além disso, a voz do enunciador dos poemas – quase todos em primeira pessoa – é contrária ao silêncio, ela fala alto e, com perfeita dicção, exige ser ouvida.

Nesse sentido, temos aqui o poeta como dono da ação, como um homem que amadureceu pelo sofrimento e pela renúncia e que, com a depuração de seus sentimentos, não se vitimiza, pois agora é ele quem diz: “se você for preguiçoso demais/ eu direi adeus”.

E esse “adeus” já é anunciado pelo título do livro, o inventário como aquele momento de avaliação em que se faz um levantamento minucioso dos bens de alguém que morreu, uma lista de objetos de valor simbólico ou material e que serão colocados à disposição. Desse modo, podemos ler os poemas deste livro como um ritual a que o poeta se dedica de inventariar suas mortes, e por meio do qual o leitor ora vê o corpo sem vida do próprio enunciador (como no poema que abre o livro, “.devolução, o poema que não nasceu”), ora vê a morte desejada do outro, ou até mesmo um corpo que jaz sem identificação.

E é por meio dessa voz firme que o leitor se depara com outra marca deste Eu ao se referir ao Outro. Ele pode ser tanto desconcertantemente sarcástico, como quando usa vocativos supostamente carinhosos, como “sweetie”, “querido”, “baby”, para introduzir temas nada adocicados (como em “.vômito”: “baby, ou melhor, seu idiota de merda,/ quando conversarmos, se eu vomitar em você// serão os sapos engolidos dia desses.”). E pode ser realmente ligado à tradição lírica em outras ocasiões, como em “.ancoradouro”: “o amor da minha vida cultiva silêncios/ enfeita o jardim, planeja festas e não as realiza.”).

Stefanni Marion fala de amor obsessivamente. Confessa o que há sob a pele do poema e do poeta. São versos carregados muitas vezes de raiva pela perda dos amores, com a ameaça de ferir o Outro. Sua poesia surge da imagem da morte, que costura muito bem os poemas do livro, estabelecendo uma unidade de raro equilíbrio. Neste Inventário, a morte é simbolicamente o caminho trilhado pelo poeta, que passa pela dor dilacerante da perda, depois pelas listas de itens que serão abandonados e/ou jogados fora e, por fim, pela negação (“o amor é uma fraude”).

Porém, desse cenário de enterros, é possível vislumbrar uma ponta de renascimento, de um reinventar-se: “pela noite/ é possível sorrir/ derramando sangue./ ele festivo jorrará vibrante/ e na escuridão dos sentidos/ é possível matar o que te fere.”.

É o rito do luto se completando.

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inv

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Um comentário em “inventário

  1. pura palavra disse:

    Belíssimo prefácio, instigante e de alto poder de captura do leitor para uma grande viagem literária. Parabéns!!

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