carta XIII

.

Tudo morre.
Você, claro, sabe disso.
Um séquito que acompanha um esquife é, como eu mesma, um cortejo. É uma saudação.
Mas não é o caso de saudades.
Aprendi a celebrar minhas mortes quando vi a bigorna cair na cabeça do gato num desenho de tevê. Depois quando vi meu avô morrer de gota em gota.
E agora que vi você morrer pela segunda vez.
Na segunda morte do mundo, segundo os astecas, durante o Segundo Sol, vendavais e furacões varreram tudo, mas os homens que se transformaram em macacos e se agarraram às árvores conseguiram permanecer.

Tudo morre. E pra morrer, a condição é a transformação. Isso, claro, você também soube. É a representação simbólica mais simples da Morte.
(Não se deixe levar por quem a chama de Santa. Não. Mictecacihuatl é a guardiã do Submundo, recebe os mortos e dá poder de morte àqueles que a cultuam.)

Você morto será transformado em pássaro?

Te enterro e ofereço flores.
Te enterro e ilumino o caminho.
Te enterro e sigo.

Anúncios

2 comentários em “carta XIII

  1. Thais I. disse:

    Muito, muito lindo, Lilian.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s