sarau para abrir os trabalhos do ano!

Amigxs queridxs,

na sexta-feira próxima (dia 16, às 20h) participarei de um lindo sarau (o “Todo Começo é Involuntário”), organizado pelo Hussardos Clube Literário, agora em parceria com a Revista Parênteses (em que tive o prazer de ser publicada).
Estou nas excelentes companhias de Ana Kehl de Moraes, Felipe Nepomuceno, Lubi Prates, Nathalie Lourenço, Raimundo Neto e Victor Heringer.

Venham, vai ser bem especial!

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2014

 

Você foi duro, 2014. Como um pai severo, tirou de mim coisas que muito amava, como brinquedos favoritos com que se passa a maior parte do tempo e se conforta em dias áridos. Mas eu sei que você, 2014-pai, via que aqueles brinquedos só sugavam de mim o meu melhor e me drenavam energia. E eu não saberia deixá-los sem sua mão forte. Mas reconheço também as muitas vezes que recompensou meus acertos e foi generoso, me dando outras possibilidade de realização, brincadeiras e conforto. Obrigada por tudo.

Outras Ruminações

amigxs queridxs,

amanhã é o lançamento da antologia em homenagem ao saudoso e querido Donizete Galvão. São 75 poetas dialogando com poemas do Doni, resultando em uma obra muito bonita. E eu tive a felicidade de participar com um poema, acompanhada de um monte de gente especial. A idealização e organização desse projeto incrível é do Tarso de Melo,Reynaldo Damazio e Ruy Proença.

Na Casa Das Rosas, 9/12, terça-feira, às 19h.

Apareçam!

 

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Sabadoni

 

Amanhã, dia 22 de novembro, participarei de uma bela homenagem ao Donizete Galvão, poeta falecido no início deste ano.
Fui convidada pelo organizadores, Reynaldo Damásio e Paulo Ferraz, e estou muito honrada por poder render esta homenagem ao querido Doni.
O evento faz parte da Programação da Balada Literária.

 

Apareçam!

 

DIA 22/11, às  13h30 – Biblioteca Alceu Amoroso Lima:

Sabadoni:

Em parceria com o SIMPOESIA, uma homenagem ao poeta DONIZETE GALVÃO

Os poetas PAULO FERRAZ e REYNALDO DAMÁSIO apresentam uma homenagem a DONIZETE GALVÃO, com vários convidados especiais, reeditando os famosos “Sabadonis” do poeta mineiro falecido no começo de 2014.

carta XIII

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Tudo morre.
Você, claro, sabe disso.
Um séquito que acompanha um esquife é, como eu mesma, um cortejo. É uma saudação.
Mas não é o caso de saudades.
Aprendi a celebrar minhas mortes quando vi a bigorna cair na cabeça do gato num desenho de tevê. Depois quando vi meu avô morrer de gota em gota.
E agora que vi você morrer pela segunda vez.
Na segunda morte do mundo, segundo os astecas, durante o Segundo Sol, vendavais e furacões varreram tudo, mas os homens que se transformaram em macacos e se agarraram às árvores conseguiram permanecer.

Tudo morre. E pra morrer, a condição é a transformação. Isso, claro, você também soube. É a representação simbólica mais simples da Morte.
(Não se deixe levar por quem a chama de Santa. Não. Mictecacihuatl é a guardiã do Submundo, recebe os mortos e dá poder de morte àqueles que a cultuam.)

Você morto será transformado em pássaro?

Te enterro e ofereço flores.
Te enterro e ilumino o caminho.
Te enterro e sigo.

inventário

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Olha, preciso dizer: o livro novo do Stefanni Marion, recém-lançado, está muito incrível.

Eu tive o prazer e honra de escrever o prefácio.

Então, vou colocar meu texto aqui  pra aguçar sua vontade de ler este INVENTÁRIO!

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É possível matar o que te fere

Seres irremediavelmente solitários, cães abandonados pelos ex-donos, uns quase zumbis. São esses os tipos que vemos se movimentando em espaços pequenos ou sujos, como um quarto ou uma sarjeta da rua, lugares onde os personagens da poesia de Stefanni Marion habitam e onde se debatem à beira de um colapso.

Inventário é o segundo livro do autor, que, tal qual seu livro de estreia, segue a tradição de uma poesia confessional visceral, que tem nas situações íntimas da vida cotidiana a matéria de sua obra, bem ao modo de poetas como Sylvia Plath e Ana Cristina César.

Uma das mais marcantes características deste livro salta aos olhos do leitor logo de início: os poemas impõem um ritmo de uma montanha russa, ora embaixo preparando a subida, ora em pleno despencar ladeira abaixo. E essas modulações de tom são dadas, em alguns poemas, pela repetição de versos, como um refrão, e em outros pela sonoridade das palavras rigorosamente escolhidas. Além disso, a voz do enunciador dos poemas – quase todos em primeira pessoa – é contrária ao silêncio, ela fala alto e, com perfeita dicção, exige ser ouvida.

Nesse sentido, temos aqui o poeta como dono da ação, como um homem que amadureceu pelo sofrimento e pela renúncia e que, com a depuração de seus sentimentos, não se vitimiza, pois agora é ele quem diz: “se você for preguiçoso demais/ eu direi adeus”.

E esse “adeus” já é anunciado pelo título do livro, o inventário como aquele momento de avaliação em que se faz um levantamento minucioso dos bens de alguém que morreu, uma lista de objetos de valor simbólico ou material e que serão colocados à disposição. Desse modo, podemos ler os poemas deste livro como um ritual a que o poeta se dedica de inventariar suas mortes, e por meio do qual o leitor ora vê o corpo sem vida do próprio enunciador (como no poema que abre o livro, “.devolução, o poema que não nasceu”), ora vê a morte desejada do outro, ou até mesmo um corpo que jaz sem identificação.

E é por meio dessa voz firme que o leitor se depara com outra marca deste Eu ao se referir ao Outro. Ele pode ser tanto desconcertantemente sarcástico, como quando usa vocativos supostamente carinhosos, como “sweetie”, “querido”, “baby”, para introduzir temas nada adocicados (como em “.vômito”: “baby, ou melhor, seu idiota de merda,/ quando conversarmos, se eu vomitar em você// serão os sapos engolidos dia desses.”). E pode ser realmente ligado à tradição lírica em outras ocasiões, como em “.ancoradouro”: “o amor da minha vida cultiva silêncios/ enfeita o jardim, planeja festas e não as realiza.”).

Stefanni Marion fala de amor obsessivamente. Confessa o que há sob a pele do poema e do poeta. São versos carregados muitas vezes de raiva pela perda dos amores, com a ameaça de ferir o Outro. Sua poesia surge da imagem da morte, que costura muito bem os poemas do livro, estabelecendo uma unidade de raro equilíbrio. Neste Inventário, a morte é simbolicamente o caminho trilhado pelo poeta, que passa pela dor dilacerante da perda, depois pelas listas de itens que serão abandonados e/ou jogados fora e, por fim, pela negação (“o amor é uma fraude”).

Porém, desse cenário de enterros, é possível vislumbrar uma ponta de renascimento, de um reinventar-se: “pela noite/ é possível sorrir/ derramando sangue./ ele festivo jorrará vibrante/ e na escuridão dos sentidos/ é possível matar o que te fere.”.

É o rito do luto se completando.

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